quarta-feira, 28 de julho de 2010

Freud na escola assistindo aula

Freud na escola assistindo aula

Cotidiano de uma escola da rede pública do ensino médio de Salvador.
- Qual é a próxima aula?
- Aula de matemática, com a professora Lia! Falou Elton num tom inspirado.
-É o que rapaz?! Desde quando gosta de matemática? – questionou Ricardo.
- Sabe como é, né! A professora é muito boa! Fazendo um gesto com as mãos representando a bunda da professora.
Os três caem na risada.
- Por isso você senta na frente! Indagou Jéferson.
- Né não é! E eu sou besta! Bora sentar na frente e vocês terão outros olhares para a matemática!!
- Então vumbora pra pegar o melhor lugar!
- Vocês tem que ver quando ela escreve no quadro!
- Porque nunca disse nada disso pra gente?
- Ah! Sei lá...
- Nós estávamos achando que tu tava maluco sentando na frente nas aulas de matemática
- Realmente eu estou maluco! Maluco pela professora

No mesmo momento outro grupo de jovens vai para a quadra para a aula de Educação Física.

- E aí meninas! Hoje vocês não vão me enrolar!
- Ih professor, hoje não tô boa!
- Que que cê tem meu amor? Brigou com o namorado?
- É o que professor? Tenho namorado não!
- Tá bom! Fica aí sentada... faz o relatório da aula
- Esse professor é um porre!

- Que que vai ter na aula hoje?
- Professor, minha moral! Hoje é o baba!
- Hoje não! Respondeu o professor
- Coé, mó vacilão!
- Fessor, o que vai ter na aula hoje?
- Oi, minha linda...! Repete que não te ouvi... E não termina a resposta ao aluno que perguntou sobre o baba...
- O que que vai ter na aula hoje?
- Nós ainda não começamos a aula, falarei com todos juntos!

E o professor reuniu a turma para explicar as atividades do dia. Divide os grupos e enquanto explica a atividade surgem os comentários entre os alunos...

-Véi, o professor só tem essa calça, é?
- Deve ser. Tá todo dia com ela!


- Ricardo, olha o tênis do professor...
- O cara usa adidas! Deve ser falci!
- Porra niúma, não conhece tênis não!
- Quero ser professor pra comprar tênis bala!
- Se saia, viado! Professor é um monte de lenhado!

-Você viu, o professor fez a barba hoje!
- Prefiro quando tá com barba a fazer... é bom que espeta!
- É o que, Marilene?
- Oxe! O professor é gostosinho...
- Ele é bonito, mas não é pra tanto...
- Venho pra essa aula só por causa dele, não sei pra quê Educação Física?
- Êtaaa! Das aulas de matemática e português você não reclama...
- Eu nem vou pra aula, fica aí!

- Esse cara não fala coisa com coisa, né Amanda?
- É porque você não presta atenção no que ele diz!
- Pra que eu quero me movimentar? Pra suar?
- Por isso que você ta gorda!

- E aí galera! Entenderam? Ninguém responde.

Começa a atividade e a grande maioria faz errado e o professor indaga o motivo da falta de atenção na explicação de sua fala e um aluno responde:
- Freud explica, professor!

Quantas vezes nós, professores, já percebemos que o aluno está mais interessado em nós do que naquilo que dizemos?
Quantas vezes já nos envaidecemos com isso?
Quantas vezes já abusamos disso?
Por outro lado, quantas vezes já nos inquietamos, e, mesmo, nos frustramos com aquele aluno que parece ignorar nossos esforços para ensiná-lo?
Quantas vezes já tivemos vontade de hostilizar aquele aluno que nos olha com desprezo, raiva ou então, nos trata com displicência?
Quantas vezes já nos perguntamos o que fizemos para disputar o amor exacerbado, a hostilidade e a indiferença?
Quantas vezes, esquivando-nos desses extremos, já fingimos não perceber o que se passa à nossa volta?
A que devemos tudo isso, se ali estamos para ensinar?
(Morgado apud Ornellas, 2005, p. 56)

Angelo Amorim

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